O ano de Mandela

 

O ano da Copa do Mundo na África do Sul é um bom momento para refletir sobre o apartheid e o papel do grande líder Nelson Mandela. Na guerrilha, na prisão e na Presidência do país, ele deu um basta à segregação entre brancos e negros.

 

O regime derrotado exibia uma crueldade elaborada. Havia, por exemplo, um esforço institucional para rebaixar a já pequena escolaridade dos negros e roubar-lhes por completo a cidadania. História Viva dedica um artigo ao assunto também porque neste ano se comemoram os 20 anos da libertação de Mandela.

 

O dossiê do mês trata de outro assunto, as cruzadas, com a proposta de desvendar aspectos desconhecidos (e nem um pouco religiosos) das guerras santas. Vale a pena acompanhar as novas interpretações dos historiadores sobre os acontecimentos da época marcados por cruz, espada e muita ambição.

 

Como em todos os meses, a edição apresenta alguns textos mais curtos, espécie de janelas para penetrar nas crônicas escritas pela humanidade ao longo dos séculos. Desta vez, a escolha dos temas obedeceu a certo “espírito de fevereiro” – de verão e viagens, de alegrias e tragédias.

 

A história da cerveja, que já no tempo das pirâmides divertia do escravo ao faraó, segue esse critério. Assim como a gloriosa e trágica experiência de Saint-Pierre, na Martinica, destruída por um vulcão. Afrancesada e com ares de paraíso, essa Pompeia caraíba segue irresistível – e perigosa. Do Caribe para a Grécia: um “mochileiro” do século II ensina o que apreciar em uma viagem por tão antigas plagas.

 

 

 

Por Liliana Pinheiro

 

 

Avatar, fábula anticolonialista

 

Além de um bom filme de ficção, Avatar é uma fascinante lição de história. Ao narrar as agruras de um povo nativo de um planeta distante – os na’vi de Pandora – o diretor James Cameron criou, na verdade, uma alegoria de um capítulo muito conhecido da trajetória do nosso próprio mundo: o do colonialismo.

 

Basta fazer um teste: substitua “Pandora” por “América”, “África” ou “Oceania”; “na’vi” por “incas”, “maias”, “astecas”, “guaranis”, “moicanos”, “iorubás”, “malinkés”, “ibos”, “haussás”, “sussus”, “zulus” ou “maoris”; “povos do céu” por “portugueses”, “espanhóis”, “ingleses”, “franceses”, “holandeses” ou “americanos”.

 

Tente trocar os termos em qualquer momento em que eles aparecem no filme, e a alegoria fica evidente. Está tudo ali: uma potência estrangeira, militarmente superior, se instala em um ambiente considerado selvagem pelos ocupantes, para explorar os recursos naturais da região. As peculiaridades da vida local são encaradas pelo invasor como manifestações de primitivismo, já que os forasteiros se acham portadores da civilização e do progresso. Qualquer tentativa da população local de proteger sua terra, sua cultura e seus valores é vista pelos colonizadores como um entrave aos interesses econômicos em jogo, e deve ser imediatamente eliminada.

 

Como o ambiente colonial é hostil ao colonizador, ele obviamente não consegue eliminar de uma hora para a outra a população local. É aí que entram os cientistas, responsáveis por estudar as populações locais e fornecer as informações necessárias para ajudar os militares a penetrar em regiões até então inacessíveis. Por acaso há alguma grande diferença entre a personagem de Sigourney Weaver no filme e os antropólogos europeus que eram enviados às colônias no século XIX para estudar o modo de vida das populações primitivas?

 

Os paralelos são inúmeros, e se poderia passar um dia inteiro estabelecendo comparações entre a ficção de Cameron e a realidade da Terra nos séculos XVIII, XIX, XX e XXI. Espere... XXI? Sim, e é nesse ponto que a repercussão do filme se torna extremamente interessante. O fato de Avatar ter despertado a ira tanto dos blogs da extrema direita americana quanto das autoridades chinesas diz muito sobre os tempos em que vivemos.

 

Por ironia do destino, quem denunciou a atualidade e relevância do tema tratado pelo fime foi justamente a direita americana, ao cometer um ato-falho acusando a obra de ser uma crítica velada à Guerra do Iraque. Ora, se James Cameron escreveu esse roteiro há 15 anos, ou seja, em 1994, ele só poderia estar falando da atual Guerra do Iraque se tivesse uma bola de cristal. Talvez ele tivesse em mente a primeira Guerra do Golfo, ou a ação das multinacionais que já naquela época se instalavam no Terceiro Mundo e expulsavam populações locais de seus lares em busca de recursos naturais... Seja como for, tudo isso fica no campo da especulação.

 

O certo é que, em pleno fim do século XX, o colonialismo continuava muito vivo, a ponto de inspirar um diretor de Hollywood a criar uma fábula sobre o tema. Ao acusar Cameron de produzir um libelo contra a Guerra do Iraque, a direita americana apenas confirma aquilo que vem tentando negar desde 2003: que a invasão do país árabe, desde o começo, nada mais foi do que um empreendimento colonialista em busca de recursos naturais, exatamente como os europeus faziam no século XIX... e eram tão criticados pelos americanos da época.

 

 

Por Bruno Fiuza

 

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