A régua da civilização

 

Na semana passada tive a satisfação de mediar o debate que História Viva organizou sobre a forma como a cultura da civilização maia vem sendo apropriada, muitas vezes de forma sensacionalista, pela mídia. O evento contou com a participação de Eduardo Natalino dos Santos, professor de história da América pré-colombiana da USP, e Alexandre Guida Navarro, arqueólogo e pesquisador da Unicamp, que participou de escavações na antiga cidade maia de Chichén Itzá, no México.

 

Foi uma noite e tanto! Durante quase uma hora os dois palestrantes deram uma aula sobre a civilização maia para um público de mais de 70 pessoas, que visitou a loja da Fnac na avenida Paulista, em São Paulo, para ouvir e ver a exposição. Na sequência, houve um pequeno debate no qual o público teve a oportunidade de conversar diretamente com os pesquisadores.

 

Em determinada altura do debate, uma moça que estava na plateia perguntou aos conferencistas se os maias conheciam ou não a roda. A curiosidade da garota era plenamente justificada: de fato, por muito tempo acreditou-se que os maias não conheciam a roda. Hoje sabe-se que isso não é verdade, mas a força do mito persiste.

 

Para responder a pergunta o professor Eduardo fez uma reflexão que, na minha opinião, foi a grande lição da noite. Em geral, disse ele, nós que vivemos imersos na cultura ocidental moderna temos a tendência de medir todas as demais civilizações pela nossa régua. Ao fazer isso, buscamos sempre identificar em outras sociedades aquilo que temos na nossa, como se possuir ou não um determinado número de artefatos ou tecnologias fosse uma boa medida para avaliar o nível de desenvolvimento e, em última análise, o sucesso ou fracasso de uma civilização.

 

Quando adotamos essa atitude, continuou o professor, simplesmente deixamos de ver aquilo que outras civilizações têm ou tiveram de original em relação à nossa. Na busca do semelhante, perdemos a oportunidade de aprender com o outro. E pior: julgamos o outro atrasado pelo fato de ele não ser igual a nós.

 

Por fim, Natalino concluiu o pensamento com a seguinte pergunta: o que faz de uma civilização mais bem sucedida que a outra? Se for a longevidade, alguns povos que vivem há mais de três mil anos no interior da floresta amazônica certamente são muito mais avançados que uma sociedade que poderia ser chamada de brasileira e que tem pouco mais de 500 anos, certo?

 

Por Bruno Fiuza

 

 

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