O ano de Mandela O ano da Copa do Mundo na África do Sul é um bom momento para refletir sobre o apartheid e o papel do grande líder Nelson Mandela. Na guerrilha, na prisão e na Presidência do país, ele deu um basta à segregação entre brancos e negros. O regime derrotado exibia uma crueldade elaborada. Havia, por exemplo, um esforço institucional para rebaixar a já pequena escolaridade dos negros e roubar-lhes por completo a cidadania. História Viva dedica um artigo ao assunto também porque neste ano se comemoram os 20 anos da libertação de Mandela. O dossiê do mês trata de outro assunto, as cruzadas, com a proposta de desvendar aspectos desconhecidos (e nem um pouco religiosos) das guerras santas. Vale a pena acompanhar as novas interpretações dos historiadores sobre os acontecimentos da época marcados por cruz, espada e muita ambição. Como em todos os meses, a edição apresenta alguns textos mais curtos, espécie de janelas para penetrar nas crônicas escritas pela humanidade ao longo dos séculos. Desta vez, a escolha dos temas obedeceu a certo “espírito de fevereiro” – de verão e viagens, de alegrias e tragédias. A história da cerveja, que já no tempo das pirâmides divertia do escravo ao faraó, segue esse critério. Assim como a gloriosa e trágica experiência de Saint-Pierre, na Martinica, destruída por um vulcão. Afrancesada e com ares de paraíso, essa Pompeia caraíba segue irresistível – e perigosa. Do Caribe para a Grécia: um “mochileiro” do século II ensina o que apreciar em uma viagem por tão antigas plagas. Por Liliana Pinheiro
Avatar, fábula anticolonialista Além de um bom filme de ficção, Avatar é uma fascinante lição de história. Ao narrar as agruras de um povo nativo de um planeta distante – os na’vi de Pandora – o diretor James Cameron criou, na verdade, uma alegoria de um capítulo muito conhecido da trajetória do nosso próprio mundo: o do colonialismo. Basta fazer um teste: substitua “Pandora” por “América”, “África” ou “Oceania”; “na’vi” por “incas”, “maias”, “astecas”, “guaranis”, “moicanos”, “iorubás”, “malinkés”, “ibos”, “haussás”, “sussus”, “zulus” ou “maoris”; “povos do céu” por “portugueses”, “espanhóis”, “ingleses”, “franceses”, “holandeses” ou “americanos”. Tente trocar os termos em qualquer momento em que eles aparecem no filme, e a alegoria fica evidente. Está tudo ali: uma potência estrangeira, militarmente superior, se instala em um ambiente considerado selvagem pelos ocupantes, para explorar os recursos naturais da região. As peculiaridades da vida local são encaradas pelo invasor como manifestações de primitivismo, já que os forasteiros se acham portadores da civilização e do progresso. Qualquer tentativa da população local de proteger sua terra, sua cultura e seus valores é vista pelos colonizadores como um entrave aos interesses econômicos em jogo, e deve ser imediatamente eliminada. Como o ambiente colonial é hostil ao colonizador, ele obviamente não consegue eliminar de uma hora para a outra a população local. É aí que entram os cientistas, responsáveis por estudar as populações locais e fornecer as informações necessárias para ajudar os militares a penetrar em regiões até então inacessíveis. Por acaso há alguma grande diferença entre a personagem de Sigourney Weaver no filme e os antropólogos europeus que eram enviados às colônias no século XIX para estudar o modo de vida das populações primitivas? Os paralelos são inúmeros, e se poderia passar um dia inteiro estabelecendo comparações entre a ficção de Cameron e a realidade da Terra nos séculos XVIII, XIX, XX e XXI. Espere... XXI? Sim, e é nesse ponto que a repercussão do filme se torna extremamente interessante. O fato de Avatar ter despertado a ira tanto dos blogs da extrema direita americana quanto das autoridades chinesas diz muito sobre os tempos em que vivemos. Por ironia do destino, quem denunciou a atualidade e relevância do tema tratado pelo fime foi justamente a direita americana, ao cometer um ato-falho acusando a obra de ser uma crítica velada à Guerra do Iraque. Ora, se James Cameron escreveu esse roteiro há 15 anos, ou seja, em 1994, ele só poderia estar falando da atual Guerra do Iraque se tivesse uma bola de cristal. Talvez ele tivesse em mente a primeira Guerra do Golfo, ou a ação das multinacionais que já naquela época se instalavam no Terceiro Mundo e expulsavam populações locais de seus lares em busca de recursos naturais... Seja como for, tudo isso fica no campo da especulação. O certo é que, em pleno fim do século XX, o colonialismo continuava muito vivo, a ponto de inspirar um diretor de Hollywood a criar uma fábula sobre o tema. Ao acusar Cameron de produzir um libelo contra a Guerra do Iraque, a direita americana apenas confirma aquilo que vem tentando negar desde 2003: que a invasão do país árabe, desde o começo, nada mais foi do que um empreendimento colonialista em busca de recursos naturais, exatamente como os europeus faziam no século XIX... e eram tão criticados pelos americanos da época. Por Bruno Fiuza
O apocalipse, quem diria, pode ser bom
História Viva acaba de lançar, em bancas e livrarias, uma edição extra, Religião – 50 mentiras que contaram para você. Só existe na versão pocket, entre outras coisas, para tornar seu preço acessível a um maior número de pessoas (68 páginas a R$ 8,90). A revista é um deleite. Em qualquer página que se abre, há uma abordagem interessante, uma visão de estudiosos a desmascarar interpretações erradas, preconceitos e criações (eruditas ou populares) que não têm correspondência com as escrituras ou a própria história. Idéias pré-concebidas – e falsas – sobre o judaísmo, o cristianismo, o islamismo e o budismo vão sendo expostas, com muita precisão e a leveza possível. E, como é irresistível quando se folheia publicações desse tipo, com apenas um texto por página, a leitura se dá de forma salteada, sem ordem, pautada pelo acaso e pelo prazer. Acabo de folhear meu exemplar. Abri aleatoriamente na página 21, que traz a seguinte afirmação no título: “Apocalipse significa catástrofe”. Em seguida, há um carimbo: “Falso!” Como assim falso? Com que então, depois de uma longa vida processando na mente, é verdade que em segundo plano, o temor de um juízo final feito de desastres de água e fogo, de guerra, fome, miséria e doença, descubro que a “apocalipse” não vem da palavra grega apokalupsis, ou seja, cataclismo. Apocalipse significa, no mesmo grego, “descobrimento”, “revelação”. Muito melhor. O exercício continua. Mais uma página aberta sem compromisso. Agora é a 37, que se refere ao judaísmo. “Eva foi a primeira mulher”. E de novo o carimbo: “Falso!” Antes de Eva, que sempre pareceu tão do bem para carregar todo o pecado do mundo, havia Lilith, a primeira esposa de Adão. Um demônio essa Lilith – a verdadeira responsável pela história do fruto proibido. Muito melhor assim. por Liliana Pinheiro
Cinquenta anos de luta contra o subdesenvolvimento A Companhia das Letras está trazendo de volta ao mercado editorial um dos maiores clássicos das ciências sociais brasileiras. Chega às livrarias este mês a edição comemorativa de 50 anos de Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado. Para marcar o lançamento, a editora promove nesta quinta-feira, 05 de novembro, em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros da USP, um debate com o historiador Fernando Novais, o economista Paul Singer e a ex-mulher de Celso Furtado, Rosa Freire D’Aguiar. Publicado originalmente em 1959, Formação Econômica do Brasil apresenta as raízes profundas do subdesenvolvimento econômico do país. Mas não apenas isso: a obra é a mais importante contribuição de um intelectual que lutou a vida inteira para ajudar a nação a superar os entraves que barravam seu desenvolvimento autônomo. Na época, Celso Furtado era um dos integrantes da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) e buscava aplicar os princípios do desenvolvimentismo pregados pela instituição à sua terra natal. Corria a década de 1950, e o Brasil ainda era o “país do futuro”. O governo de Juscelino Kubitschek prometia fazer com que a nação avançasse “50 anos em 5” e a promessa de se tornar uma economia avançada parecia uma realidade palpável. Foi nesse contexto que Furtado publicou aquela que se tornaria sua obra-prima. Para o economista, o caminho rumo ao desenvolvimento pleno da economia passava por uma industrialização amparada por uma forte intervenção do Estado. O objetivo era superar o modelo agroexportador e criar no Brasil a infraestrutura necessária para a produção de bens até então importados. As reformas defendidas por Furtado foram inicialmente adotadas pelos governos Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart, mas com o golpe militar de 1964 a heterodoxia econômica passou a ser vista com suspeitas. A partir da década de 1980, o desenvolvimentismo caiu em total descrédito, abrindo espaço para a desindustrialização e um retorno parcial ao modelo agroexportador na década de 1990. O livro de Celso Furtado volta às livrarias em um momento estratégico, em que, após mais de 20 anos de hegemonia neoliberal, o debate econômico no Brasil volta a abrir espaço para algumas teses desenvolvimentistas. É por isso que, mais de 50 anos após sua publicação, a obra continua sendo um instrumento fundamental na secular luta contra o subdesenvolvimento no país. Lançamento da edição comemorativa de 50 anos de Formação Econômica do Brasil Quando: Quinta-feira, 05 de novembro, às 17h30 Onde: Instituto de Estudos Brasileiros – USP Endereço: Avenida Professor Mello de Moraes, Travessa 8, nº 140 – Cidade Universitária – São Paulo, SP Informações: 3091-1149 Por Bruno Fiuza
O medo e o erro Um artigo do escritor Juan Goytisolo, publicado no jornal espanhol El País no dia 18 de outubro, informa que a abertura dos arquivos do Foreign Office, com documentos do período imediatamente anterior à queda do Muro de Berlim, confirma que François Mitterrand e Margaret Thatcher tinham severas restrições à reunificação imediata da Alemanha, dividida pela Guerra Fria. De que tinham medo? De um expansionismo alemão nos moldes do que havia tentado Hitler décadas antes. De acordo com Goytisolo, o presidente francês, por exemplo, "temia que os governos da França e Grã-Bretanha ficassem na mesma situação que seus antecessores nos anos 30 e ante a qual não souberam reagir". O muro caiu, e a Alemanha foi reunificada em curto espaço de tempo, desmentindo o vaticínio da volta do nacionalismo e do espírito de germanização que havia colhido o povo alemão no passado. A explicação para essa (boa) reversão de expectativas está em parte no perfil da população alemã nos dias que correm. Imigrantes de muitas cores e culturas compõem a fatia social trabalhadora do país e são alheios às maluquices envolvendo o polêmico conceito de “raça”, com seus repugnantes qualitativos de superioridade ou inferioridade. Para ler artigo do El País (em espanhol), clique no link abaixo: http://www.elpais.com/articulo/opinion/Mitterrand/reunificacion/alemana/elpepiopi/20091018elpepiopi_4/Tes/ Por Liliana Pinheiro
O Ministério da Saúde adverte... O Ministério da Saúde adverte: publicidade pode fazer mal à saúde... ou pelo menos podia, até a década de 1950. Isso é o que mostra uma interessante exposição que entra em cartaz hoje no Conjunto Nacional. “Propaganda de cigarro. Como a indústria enganou você” traz 63 reproduções de campanhas veiculadas nos Estados Unidos entre os anos 20 e 50. Vale a pena contemplar as peças de perto para ver até que ponto chegou a indústria do tabaco na primeira década do século XX. Para quem quiser se aprofundar no assunto, está no ar, no site de História Viva, um artigo assinado pela pesquisadora Maria Berenice da Costa Machado que conta um pouco da história da publicidade na época do vale-tudo promovido pela indústria do cigarro. O artigo é ilustrado, justamente, com reproduções de algumas das campanhas que integram a mostra. A matéria pode ser acessa no seguinte endereço eletrônico: http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/o_lado_perverso_da_persuasao.html Por Bruno Fiuza
O poder da velha “língua pátria” O jornal O Estado de S. Paulo publicou na última segunda-feira (21/9) uma emblemática reportagem: os governos de países da ex-União Soviética estão rebaixando o idioma russo e estimulando o uso de suas línguas originais. O diário dá como exemplo a Ucrânia: “Num canto da livraria Bukvatoriya, localizada nesta capital da península da Crimeia, há estantes repletas de obras literárias tão provocativas para o Kremlin quanto um batalhão de soldados da Otan. Os livros são clássicos - de autoria de Oscar Wilde, Victor Hugo, Mark Twain e Shakespeare - que foram traduzidos para o ucraniano, em edições destinadas ao público adolescente. Um Harry Potter que lança feitiços em ucraniano também está presente nas prateleiras.” Na origem da iniciativa ucraniana há razões políticas – deixar no passado a obrigatória orientação de Moscou nos assuntos internos do país. O mesmo fenômeno está em curso em quase todo o ex-bloco soviético. Já a aceitação popular tem razões mais complexas do que a política, como a necessidade de regatar a identidade nacional, que pela força foi mitigada nos tempos da Guerra Fria. “O russo é um dos poucos grandes idiomas a perder adeptos e, segundo estimativas, o total de pessoas fluentes no russo cairá para 150 milhões até 2025, um grande declínio em relação aos 300 milhões de versados no russo que havia em 1990, um ano antes do colapso soviético”, segue o Estadão. Os fatos expostos na reportagem dão o que pensar. Especialmente em um Brasil em que muitos sites, blogs e mesmo colunistas de jornais e revistas impressos não se dão nem mais ao trabalho de traduzir para o português as citações em outros idiomas que fazem em seus textos. Alguns simplesmente fazem de conta que o país é bilíngüe e consideram qualquer reclamação um libelo antiglobalização ou expressão de minoria remanescente dos idos tempos em que havia uma disciplina nas escolas públicas chamada “Língua Pátria”. Não se trata de defender nacionalismos tolos, mas um pouco de apreço pela língua e, principalmente, de respeito pela maioria cairia bem aos escrevinhadores brasileiros. Para ler a reportagem completa: http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,idioma-russo-entra-em-declinio-na-antiga-urss,438381,0.htm Por Liliana Pinheiro
Os bilhetes de Getúlio No dia do aniversário de 55 anos da morte de Getúlio Vargas, o jornal Folha de S.Paulo revela o paradeiro de 454 bilhetes escritos pelo ex-presidente para o seu chefe da Casa Civil, Lourival Fontes, em 1951. São mensagens que Vargas enviou a seus ministros e funcionários durante os quatro anos em que governou o país como presidente eleito democraticamente, entre 1951 e 1954. Os documentos fazem parte de um grande acervo de mensagens que Fontes guardou para a posteridade. Em 1966 ele revelou a existência desse arquivo para o repórter Glauco Carneiro, da revista O Cruzeiro, mas o conteúdo dessas mensagens permaneceu desconhecido, por iniciativa do próprio Fontes. Em 1967 o ex-ministro de Vargas morreu e confiou a guarda dos bilhetes ao ex-governador de Sergipe, Lourival Baptista, solicitando que as mensagens só fossem tornadas públicas depois de 40 anos. Expirado o “período de quarentena”, o filho do sergipano Lourival Baptista, o psiquiatra Francisco Baptista Neto, finalmente mostrou ao jornalista Marcos Strecker, da Folha, os bilhetes de Getúlio. Trata-se de uma documentação importante justamente porque ajuda os pesquisadores a conhecerem melhor um Vargas distante dos estereótipos construídos em torno de sua figura. O Getúlio que surge desses bilhetes não é o personagem mítico criado pela propaganda do Estado Novo nem o caudilho autoritário pintado por seus adversários. É o administrador público eleito democraticamente, despachando assuntos do cotidiano, longe dos holofotes. O fato de se tratarem de mensagens privadas, que não tinham qualquer intenção de propaganda, talvez ajude os pesquisadores a compreender melhor essa figura ambígua que ainda desperta paixões entre as mais variadas correntes ideológicas. Por Bruno Fiuza
Era da Esquizofrenia Há algum tempo certos pensadores vêm falando de um novo “mal-estar na civilização”, típico de nosso tempo: o abandono da vivência concreta em benefício de variadas formas de interação virtual. Em geral, esse costuma ser um debate árido e profundamente abstrato, mas a brilhante entrevista que o jornalista americano Gay Talese concedeu ao programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, no último dia 20 de julho, mostrou que a questão está longe de ser um mero debate acadêmico. Durante a conversa com os entrevistadores escalados pelo programa, Talese, um dos criadores do chamado new journalism, falou sobre as dificuldades pelas quais o jornalismo passa hoje. Segundo ele, boa parte da crise de credibilidade que a imprensa mundial (e americana em especial) vem enfrentando desde os atentados de 11 de setembro de 2001 se deve ao fato de os repórteres terem deixado de fazer aquilo que ele chama de legwork, o bom e velho “gastar sola de sapato”. Talese tem moral para fazer essa crítica às novas gerações. Ele é um dos principais representantes do movimento que nos anos 60 fundiu jornalismo e literatura, utilizando técnicas narrativas sofisticadas para contar histórias reais por meio de grandes reportagens. Para isso, os jornalistas dessa escola iam para as ruas e mergulhavam profundamente no cotidiano dos personagens que retratavam. Passavam semanas investigando para depois condensar suas experiências em um texto literário de não-ficção. O fato de um dos pais desse tipo de jornalismo constatar que o gênero está em crise diz muito não só sobre a imprensa atual, mas também sobre o mundo no qual ela está inserida. A verdade é que a constatação de Talese é a ponta de um iceberg muito mais profundo, de proporções históricas gigantescas. Não são só os jornalistas que não saem mais às ruas para fazer reportagem. Não são só os repórteres que escrevem verdadeiros tratados sobre pessoas que nunca viram pessoalmente na vida. A cada dia, cada um de nós faz isso com cada vez mais frequência. A crise do new journalism é consequência de uma das mais radicais revoluções técnicas dos últimos 500 anos, a revolução da informática e das telecomunicações. Nas últimas quatro décadas as tecnologias da informação se desenvolveram de tal maneira que surgiu um abismo entre a época de ouro do new journalism e os dias atuais. Não há dúvida de que hoje temos acesso a uma quantidade de informações incrivelmente maior do que nossos colegas dos anos 50 e 60 tinham. Isso em tese é ótimo, mas esse salto tecnológico produziu um efeito colateral do qual só agora estamos começando a nos dar conta: o divórcio com a realidade que nos cerca. As máquinas nos permitem entrar em contato, em tempo real, com o outro lado do planeta, mas ao mesmo tempo nos afastam do nosso vizinho. Quando queremos falar com um amigo, por falta de tempo deixamos de marcar um encontro ou até mesmo de ligar, e nos limitamos a mandar um e-mail. O resultado disso é que estamos cada vez mais distantes da realidade, da vivência concreta. Estamos transferindo nossa vida para o mundo virtual e achamos isso lindo. Por tudo isso, a entrevista de Gay Talese lembra como, em certo sentido, por trás de todo esse progresso que veneramos como um deus moderno, está em curso uma regressão brutal. Estamos simultaneamente avançando e regredindo, dançando como Michael Jackson, dando a impressão de estar caminhando para frente quando na verdade andamos para trás. Sabemos tudo o que está acontecendo no Afeganistão, mas somos incapazes de sair à rua e olhar nos olhos do nosso vizinho. Estamos nos divorciando da realidade, e as consequências podem ser catastróficas. A crise financeira global é um sinal desse processo: depois de décadas de transações virtuais em que valores inexistentes eram negociados por malabaristas responsáveis por fazer as pessoas acreditarem em um mundo que não passava de um castelo de cartas, a economia decidiu passar a fatura... e de repente todo mundo se lembrou que o mundo real ainda existe. O crescimento assustador da indústria de antidepressivos não é mais um sinal desse novo mal-estar na civilização? Que trauma maior para uma criança que passou a vida toda protegida da realidade de repente se dar conta, aos 18 anos, de que vai ter que fazer o impossível para conseguir um emprego em um mundo onde o trabalho é cada vez mais dispensável? Os psicólogos e psiquiatras dizem que a esquizofrenia é o distúrbio que provoca uma cisão com a realidade. Não seria exagero, portanto, dizer que estamos vivendo a Era da Esquizofrenia. E é melhor pensarmos bem até que ponto estamos dispostos a levar adiante esse divórcio com o mundo real... Por Bruno Fiuza
A régua da civilização Na semana passada tive a satisfação de mediar o debate que História Viva organizou sobre a forma como a cultura da civilização maia vem sendo apropriada, muitas vezes de forma sensacionalista, pela mídia. O evento contou com a participação de Eduardo Natalino dos Santos, professor de história da América pré-colombiana da USP, e Alexandre Guida Navarro, arqueólogo e pesquisador da Unicamp, que participou de escavações na antiga cidade maia de Chichén Itzá, no México. Foi uma noite e tanto! Durante quase uma hora os dois palestrantes deram uma aula sobre a civilização maia para um público de mais de 70 pessoas, que visitou a loja da Fnac na avenida Paulista, em São Paulo, para ouvir e ver a exposição. Na sequência, houve um pequeno debate no qual o público teve a oportunidade de conversar diretamente com os pesquisadores. Em determinada altura do debate, uma moça que estava na plateia perguntou aos conferencistas se os maias conheciam ou não a roda. A curiosidade da garota era plenamente justificada: de fato, por muito tempo acreditou-se que os maias não conheciam a roda. Hoje sabe-se que isso não é verdade, mas a força do mito persiste. Para responder a pergunta o professor Eduardo fez uma reflexão que, na minha opinião, foi a grande lição da noite. Em geral, disse ele, nós que vivemos imersos na cultura ocidental moderna temos a tendência de medir todas as demais civilizações pela nossa régua. Ao fazer isso, buscamos sempre identificar em outras sociedades aquilo que temos na nossa, como se possuir ou não um determinado número de artefatos ou tecnologias fosse uma boa medida para avaliar o nível de desenvolvimento e, em última análise, o sucesso ou fracasso de uma civilização. Quando adotamos essa atitude, continuou o professor, simplesmente deixamos de ver aquilo que outras civilizações têm ou tiveram de original em relação à nossa. Na busca do semelhante, perdemos a oportunidade de aprender com o outro. E pior: julgamos o outro atrasado pelo fato de ele não ser igual a nós. Por fim, Natalino concluiu o pensamento com a seguinte pergunta: o que faz de uma civilização mais bem sucedida que a outra? Se for a longevidade, alguns povos que vivem há mais de três mil anos no interior da floresta amazônica certamente são muito mais avançados que uma sociedade que poderia ser chamada de brasileira e que tem pouco mais de 500 anos, certo? Por Bruno Fiuza
O século XX vai acabando... Há o que celebrar nesse quase fim da primeira década do século XXI: finalmente, o século XX está dando sinais de ir embora. Que se vá! E que o diga Honduras, até aqui a última vítima do repertório político que vigorou naqueles tempos e que, vez por outra, vem assombrar e desacatar a nossa inteligência. O sinal mais consistente de que o século passado vai acabando é que o mundo (quase) civilizado latino-americano condenou veementemente golpe militar recém-dado em Honduras. De fato, só nos faltava essa: enfrentar de novo fardas e coturnos. Melhor ainda que o mesmo mundo (quase) civilizado latino-americano também dê sinais de não engolir a piada constitucional do presidente deposto pelo golpe, que queria fazer um plebiscito para esticar seu mandato. Vejam que, dos dois lados do embate local, tudo cheira passado, e não por acaso o mundo anda ressabiado com golpistas e golpeados. Os militares golpistas (ainda que ao lado do Judiciário e de parte do Congresso hondurenho) têm aquele cheiro péssimo de Brasil, Argentina e Chile dos anos 60, 70 e 80. E o presidente hondurenho apeado do poder exala o chavismo típico das últimas escatologias dos anos 1900 – em especial a de que democracia se garante por meio de práticas plebiscitárias freqüentes, o que abre amplo espaço para “legitimação” de casuísmos. Eleições e plebiscitos são instrumentos cruciais para o funcionamento de uma democracia. Não são, sozinhos, garantia de um bom caminho institucional. Democracia é uma soma de valores – entre os quais o respeito à Constituição e a longevidade ou estabilidade de regras e contratos. É ainda uma soma de consciências e saberes de sociedades politicamente maduras. Regimes militares e aventuras chavistas estão fora dessa receita. Que o povo de Honduras saia desse episódio com o respeito que lhe é devido e que esse seja o último suspiro da lambança direitista e esquerdista que alimentou os oportunistas do século XX. Por Liliana Pinheiro
"Primavera de Teerã": a história se repete? Para entender a agitação no Irã desde as eleições presidenciais do dia 12 de junho e por que isso mexe tanto com a política internacional, recomendo a leitura de dois artigos. O primeiro sobre o que aconteceu há 30 anos no país dos aitolás, e o segundo, sobre o cenário de hoje. O primeiro artigo está no site de História Viva, assinado por Osvaldo Coggiola, professor do programa de pós-graduação em história econômica da USP e autor do livro A revolução iraniana (Unesp, 2008). “Em 1978-1979, ocorreu no Irã uma agitação vertiginosa na qual a classe operária teve presença marcante. O movimento conseguiu desmantelar o Estado imperial e criar uma situação revolucionária”, afirma Coggiola. Só que depois houve a apropriação integral do movimento pelo clero xiita, situação que se estende até os dias atuais. Para ler o artigo inteiro, clique em www.historiaviva.com.br O segundo artigo está no jornal Folha de S.Paulo desta sexta, dia 19 de junho. Patrick Cockburn, articulista do jornal britânico Independent, expõe as peças que estão no tabuleiro neste momento, comparando-as com o jogo em 1979. “A Revolução Iraniana foi feita por uma coalizão que abarcava esquerda e direita, com religiosos conservadores em um dos extremos e marxistas revolucionários em outro”, conta. E hoje? “Os símbolos e a linguagem usados no Irã em 2009 se assemelham ao que aconteceu em 1978/79, mas as forças políticas que estão em ação não poderiam ser menos parecidas.” Para ler o artigo inteiro (só assinantes têm acesso), clique em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1906200903.htm Liliana Pinheiro
Como é e como deveria ser Alguns leitores advertiram, acerca da nota anterior publicada neste blog, que uma tomada de posição de um lado, em detrimento de outro, é uma espécie de falta teórica, em se tratando de editores de uma revista de história. A nota em questão de certa forma recomendava o repúdio em relação às pretensões da Coreia do Norte de desenvolver a bomba atômica – se é que já não a tem pronta – principalmente por ser um país governado por uma ditadura exótica, para se dizer o mínimo; ao mesmo tempo, poupava de críticas potências nucleares como Israel, capazes de desestabilizar ainda mais uma região cronicamente em conflito. Democracias não seriam, por definição, melhores gestoras de armamentos do que ditaduras, reclamaram os atentos leitores, por e-mail endereçados à Redação. Primeiro uma explicação: uma revista não se confunde com um blog. Naquela, temos de ser cuidadosos para que o registro da história não seja conspurcado por visões conjunturais dos editores e dos autores. Existem linhas e ferramentas de análise dos fatos, é certo, mas nada é pessoal. Já no blog, os exercícios reflexivos são desejáveis, mesmo quando possam parecer insensatos. A interatividade se incumbe de lhes dar validade ou lhes tirar a autoridade. Blogs são veículos até aqui um bocado interessantes, com seus defeitos e vícios. Quase nenhum blogueiro se ocupa daquilo que é – tarefa reservada ao noticiário convencional, à revista convencional, ao livro convencional. O objeto do blogueiro é aquilo que deveria ser. E assim formamos um substancial saber normativo - tolo, talvez, mas ainda assim indispensável por enquanto. O diálogo global (ou qualquer outro) começa com uma exposição de pontos de vista. O desenvolvimento da internet quis que a pessoalidade fosse o ponto de partida. Um dia, talvez os blogueiros deixem de ditar regras, parem de legislar sobre como os homens e as sociedades deveriam se organizar e as vejam como são, e não como deveriam ser. Só que, nesse dia, os blogs estarão mortos – para nossa tristeza ou regozijo, como saber? Liliana Pinheiro
Coreia do Norte: o perigo da relativização Coisa rara é encontrar no jornalismo alguém com coragem para dizer com todas as letras que a Coreia do Norte não tem o direito de desenvolver armas nucleares. “Não tem por quê?”, retruca a maioria. O argumento para tal “cuidado” é sempre o mesmo: se EUA, Rússia, França, China, Reino Unido, Índia, Paquistão e Israel têm um programa nuclear ativo, por que não a Coreia de King Jong-Il? Nesse ponto, a discussão toma o rumo do infinito. Tudo se torna relativo. E o prudente passa por autoritário; o maluco por progressista; o limitado e quase sempre inexperiente, por teórico de peso da política internacional. Relativizamos tudo, sempre, ainda que um prejuízo certo esteja sob nossos narizes. Que mais não seja, a Coreia do Norte não pode entrar para o clube nuclear porque possui um sistema político extravagante, no pior sentido. O povo é mantido à distância do poder, apartado de toda e qualquer informação e formação qualificadas e, não bastasse, embalado por uma mitologia que, mais do que enganação, é o combustível do culto à personalidade do líder. O regime é fechado também para os vizinhos e o resto do mundo, impermeável a qualquer supervisão de organismos internacionais e, se alguém ainda não notou, absolutamente indócil. Tudo para manter o “Bem Amado Dirigente” no poder. King Jong-Il também pode ser chamado pelo povo de “Querido Líder”. O custo que o povo norte-coreano paga por tamanho exotismo é altíssimo. O historiador e jornalista francês Christophe Courau, estudioso do país, dá melhor dimensão da miséria que tomou conta da Coréia do Norte: “Desde o fim da ajuda chinesa e, depois, da soviética, a economia norte-coreana está decadente. A fome teria provocado, em 1995, a morte de 3 milhões de pessoas”, escreveu, na edição número 3 de História Viva. Para Courau, o único setor em desenvolvimento vem sendo a indústria militar. “Em agosto de 1998, o Japão constatou o lançamento de um míssil norte-coreano, cuja trajetória passava através do espaço aéreo japonês e terminava no Pacífico”, explica. A arma, que, que teria alcance de 2 mil km, era, provavelmente, um Taepodong 1, “embora a Coreia do Norte tenha dito que se tratava de um lançador de satélites. A partir de então, os especialistas têm certeza de que esses mísseis poderão, em breve, atingir a costa oeste dos Estados Unidos”. Sabem quando isso foi escrito por Courau? Há pelo menos cinco anos! De lá para cá, só duas coisas mudaram: diminuiu a distância entre a intenção e o gesto do governante maluco e aumentou a pobreza dos cidadãos norte-coreanos. Não há o que relativizar. A Coreia do Norte não pode entrar para o clube militar. A rigor, ninguém poderia, mas como não temos um mundo a rigor, que sejam barradas aos menos todas as formas totalitárias de governo. Para saber mais: http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/coreia_do_norte_a_republica_ermita.html por Liliana Pinheiro
Sob a névoa da ditadura Mais um post sobre o regime militar... mas fazer o quê? Este ainda é um dos grandes mistérios de nossa história recente, e, como todo bom mistério, vai continuar atiçando o apetite de todos aqueles que se interessam pelo estudo do passado. O problema é quando essa sanha, alimentada pelo manto de segredo que cobre o assunto, dá margem para distorções. O recente episódio da publicação de uma ficha policial falsa da atual ministra-chefe da Casa Civil, supostamente da época em que esta participava de grupos de resistência armada ao regime militar, deixa mais do que claro qual é o resultado de perpetuar o silêncio dos arquivos. Enquanto milhares de historiadores em todo o país poderiam estar se dedicando a ir além da propaganda de ambos os lados para contar à população o que de fato foram os “anos de chumbo”, ainda prevalece a visão retrógrada e anacrônica que invoca a tal “segurança de Estado” para manter os documentos bem longe da vista do público. Os que assumem tal posição não fazem mais do que perpetuar mitos e disseminar desinformação sobre o nosso passado. Alguns exemplos recentes mostram que, quando colocados à disposição de pesquisadores criteriosos e competentes, os arquivos da ditadura se tornam uma fonte inesgotável para a produção de conhecimento da mais alta qualidade. Só para ficar nos mais evidentes: graças ao acesso que teve aos arquivos do general Golbery do Couto e Silva, o jornalista Elio Gaspari produziu um dos mais importantes trabalhos dos últimos tempos sobre a história contemporânea brasileira. Outra iniciativa que merece destaque é o PROIN (Projeto Integrado Arquivo/USP), coordenado pela professora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de São Paulo. Desde 1995, diversos pesquisadores tiveram acesso aos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (DEOPS) do Estado de São Paulo, abertos ao público em 1991. O resultado é uma série de livros publicados que nos ajudam a conhecer um pouco melhor a tortuosa e obscura história da repressão política em nosso país. Iniciativas como essas já deveriam ser suficientes para convencer qualquer viúva da Guerra Fria de que a transparência é o melhor caminho para se lidar com a informação pública em uma democracia. Infelizmente, porém, o obscurantismo continua a dar margem para que o jornal de maior circulação do país publique uma ficha policial inventada de uma das mais importantes autoridades do país. Por Bruno Fiuza
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