O século XX vai acabando...

Há o que celebrar nesse quase fim da primeira década do século XXI: finalmente, o século XX está dando sinais de ir embora. Que se vá! E que o diga Honduras, até aqui a última vítima do repertório político que vigorou naqueles tempos e que, vez por outra, vem assombrar e desacatar a nossa inteligência.  

O sinal mais consistente de que o século passado vai acabando é que o mundo (quase) civilizado latino-americano condenou veementemente golpe militar recém-dado em Honduras. De fato, só nos faltava essa: enfrentar de novo fardas e coturnos.

Melhor ainda que o mesmo mundo (quase) civilizado latino-americano também dê sinais de não engolir a piada constitucional do presidente deposto pelo golpe, que queria fazer um plebiscito para esticar seu mandato.

Vejam que, dos dois lados do embate local, tudo cheira passado, e não por acaso o mundo anda ressabiado com golpistas e golpeados.

Os militares golpistas (ainda que ao lado do Judiciário e de parte do Congresso hondurenho) têm aquele cheiro péssimo de Brasil, Argentina e Chile dos anos 60, 70 e 80. E o presidente hondurenho apeado do poder exala o chavismo típico das últimas escatologias dos anos 1900 – em especial a de que democracia se garante por meio de práticas plebiscitárias freqüentes, o que abre amplo espaço para “legitimação” de casuísmos.

Eleições e plebiscitos são instrumentos cruciais para o funcionamento de uma democracia. Não são, sozinhos, garantia de um bom caminho institucional. Democracia é uma soma de valores – entre os quais o respeito à Constituição e a longevidade ou estabilidade de regras e contratos. É ainda uma soma de consciências e saberes de sociedades politicamente maduras.

Regimes militares e aventuras chavistas estão fora dessa receita. Que o povo de Honduras saia desse episódio com o respeito que lhe é devido e que esse seja o último suspiro da lambança direitista e esquerdista que alimentou os oportunistas do século XX.

Por Liliana Pinheiro

 

"Primavera de Teerã": a história se repete?

Para entender a agitação no Irã desde as eleições presidenciais do dia 12 de junho e por que isso mexe tanto com a política internacional, recomendo a leitura de dois artigos. O primeiro sobre o que aconteceu há 30 anos no país dos aitolás, e o segundo, sobre o cenário de hoje.

O primeiro artigo está no site de História Viva, assinado por Osvaldo Coggiola, professor do programa de pós-graduação em história econômica da USP e autor do livro A revolução iraniana (Unesp, 2008).

“Em 1978-1979, ocorreu no Irã uma agitação vertiginosa na qual a classe operária teve presença marcante. O movimento conseguiu desmantelar o Estado imperial e criar uma situação revolucionária”, afirma Coggiola. Só que depois houve a apropriação integral do movimento pelo clero xiita, situação que se estende até os dias atuais.

Para ler o artigo inteiro, clique em www.historiaviva.com.br

O segundo artigo está no jornal Folha de S.Paulo desta sexta, dia 19 de junho. Patrick Cockburn, articulista do jornal britânico Independent, expõe as peças que estão no tabuleiro neste momento, comparando-as com o jogo em 1979. “A Revolução Iraniana foi feita por uma coalizão que abarcava esquerda e direita, com religiosos conservadores em um dos extremos e marxistas revolucionários em outro”, conta. E hoje? “Os símbolos e a linguagem usados no Irã em 2009 se assemelham ao que aconteceu em 1978/79, mas as forças políticas que estão em ação não poderiam ser menos parecidas.”

Para ler o artigo inteiro (só assinantes têm acesso), clique em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1906200903.htm

Liliana Pinheiro

Como é e como deveria ser

 

Alguns leitores advertiram, acerca da nota anterior publicada neste blog, que uma tomada de posição de um lado, em detrimento de outro, é uma espécie de falta teórica, em se tratando de editores de uma revista de história.

A nota em questão de certa forma recomendava o repúdio em relação às pretensões da Coreia do Norte de desenvolver a bomba atômica – se é que já não a tem pronta – principalmente por ser um país governado por uma ditadura exótica, para se dizer o mínimo; ao mesmo tempo, poupava de críticas potências nucleares como Israel, capazes de desestabilizar ainda mais uma região cronicamente em conflito.

Democracias não seriam, por definição, melhores gestoras de armamentos do que ditaduras, reclamaram os atentos leitores, por e-mail endereçados à Redação.

Primeiro uma explicação: uma revista não se confunde com um blog. Naquela, temos de ser cuidadosos para que o registro da história não seja conspurcado por visões conjunturais dos editores e dos autores. Existem linhas e ferramentas de análise dos fatos, é certo, mas nada é pessoal. Já no blog, os exercícios reflexivos são desejáveis, mesmo quando possam parecer insensatos. A interatividade se incumbe de lhes dar validade ou lhes tirar a autoridade.

Blogs são veículos até aqui um bocado interessantes, com seus defeitos e vícios. Quase nenhum blogueiro se ocupa daquilo que é – tarefa reservada ao noticiário convencional, à revista convencional, ao livro convencional. O objeto do blogueiro é aquilo que deveria ser. E assim formamos um substancial saber normativo - tolo, talvez, mas ainda assim indispensável por enquanto. O diálogo global (ou qualquer outro) começa com uma exposição de pontos de vista. O desenvolvimento da internet quis que a pessoalidade fosse o ponto de partida. 

Um dia, talvez os blogueiros deixem de ditar regras, parem de legislar sobre como os homens e as sociedades deveriam se organizar e as vejam como são, e não como deveriam ser. Só que, nesse dia, os blogs estarão mortos – para nossa tristeza ou regozijo, como saber? 

Liliana Pinheiro

 

Coreia do Norte: o perigo da relativização

Coisa rara é encontrar no jornalismo alguém com coragem para dizer com todas as letras que a Coreia do Norte não tem o direito de desenvolver armas nucleares. “Não tem por quê?”, retruca a maioria. O argumento para tal “cuidado” é sempre o mesmo: se EUA, Rússia, França, China, Reino Unido, Índia, Paquistão e Israel têm um programa nuclear ativo, por que não a Coreia de King Jong-Il?

Nesse ponto, a discussão toma o rumo do infinito. Tudo se torna relativo. E o prudente passa por autoritário; o maluco por progressista; o limitado e quase sempre inexperiente, por teórico de peso da política internacional. Relativizamos tudo, sempre, ainda que um prejuízo certo esteja sob nossos narizes.

Que mais não seja, a Coreia do Norte não pode entrar para o clube nuclear porque possui um sistema político extravagante, no pior sentido. O povo é mantido à distância do poder, apartado de toda e qualquer informação e formação qualificadas e, não bastasse, embalado por uma mitologia que, mais do que enganação, é o combustível do culto à personalidade do líder.

O regime é fechado também para os vizinhos e o resto do mundo, impermeável a qualquer supervisão de organismos internacionais e, se alguém ainda não notou, absolutamente indócil. Tudo para manter o “Bem Amado Dirigente” no poder. King Jong-Il também pode ser chamado pelo povo de “Querido Líder”.

O custo que o povo norte-coreano paga por tamanho exotismo é altíssimo. O historiador e jornalista francês Christophe Courau, estudioso do país, dá melhor dimensão da miséria que tomou conta da Coréia do Norte: “Desde o fim da ajuda chinesa e, depois, da soviética, a economia norte-coreana está decadente. A fome teria provocado, em 1995, a morte de 3 milhões de pessoas”, escreveu, na edição número 3 de História Viva.

Para Courau, o único setor em desenvolvimento vem sendo a indústria militar. “Em agosto de 1998, o Japão constatou o lançamento de um míssil norte-coreano, cuja trajetória passava através do espaço aéreo japonês e terminava no Pacífico”, explica.  A arma, que, que teria alcance de 2 mil km, era, provavelmente, um Taepodong 1, “embora a Coreia do Norte tenha dito que se tratava de um lançador de satélites. A partir de então, os especialistas têm certeza de que esses mísseis poderão, em breve, atingir a costa oeste dos Estados Unidos”.

Sabem quando isso foi escrito por Courau? Há pelo menos cinco anos! De lá para cá, só duas coisas mudaram: diminuiu a distância entre a intenção e o gesto do governante maluco e aumentou a pobreza dos cidadãos norte-coreanos.

Não há o que relativizar. A Coreia do Norte não pode entrar para o clube militar. A rigor, ninguém poderia, mas como não temos um mundo a rigor, que sejam barradas aos menos todas as formas totalitárias de governo.

Para saber mais:

http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/coreia_do_norte_a_republica_ermita.html

por Liliana Pinheiro

Sob a névoa da ditadura

 

Mais um post sobre o regime militar... mas fazer o quê? Este ainda é um dos grandes mistérios de nossa história recente, e, como todo bom mistério, vai continuar atiçando o apetite de todos aqueles que se interessam pelo estudo do passado. O problema é quando essa sanha, alimentada pelo manto de segredo que cobre o assunto, dá margem para distorções.

 

 

O recente episódio da publicação de uma ficha policial falsa da atual ministra-chefe da Casa Civil, supostamente da época em que esta participava de grupos de resistência armada ao regime militar, deixa mais do que claro qual é o resultado de perpetuar o silêncio dos arquivos. Enquanto milhares de historiadores em todo o país poderiam estar se dedicando a ir além da propaganda de ambos os lados para contar à população o que de fato foram os “anos de chumbo”, ainda prevalece a visão retrógrada e anacrônica que invoca a tal “segurança de Estado” para manter os documentos bem longe da vista do público. Os que assumem tal posição não fazem mais do que perpetuar mitos e disseminar desinformação sobre o nosso passado.

 

Alguns exemplos recentes mostram que, quando colocados à disposição de pesquisadores criteriosos e competentes, os arquivos da ditadura se tornam uma fonte inesgotável para a produção de conhecimento da mais alta qualidade. Só para ficar nos mais evidentes: graças ao acesso que teve aos arquivos do general Golbery do Couto e Silva, o jornalista Elio Gaspari produziu um dos mais importantes trabalhos dos últimos tempos sobre a história contemporânea brasileira.

 

 

Outra iniciativa que merece destaque é o PROIN (Projeto Integrado Arquivo/USP), coordenado pela professora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de São Paulo. Desde 1995, diversos pesquisadores tiveram acesso aos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (DEOPS) do Estado de São Paulo, abertos ao público em 1991. O resultado é uma série de livros publicados que nos ajudam a conhecer um pouco melhor a tortuosa e obscura história da repressão política em nosso país.  

 

 Iniciativas como essas já deveriam ser suficientes para convencer qualquer viúva da Guerra Fria de que a transparência é o melhor caminho para se lidar com a informação pública em uma democracia. Infelizmente, porém, o obscurantismo continua a dar margem para que o jornal de maior circulação do país publique uma ficha policial inventada de uma das mais importantes autoridades do país.

 

Por Bruno Fiuza

 

Politicamente corretos, indignados e tolos

Seria cansativo listar aqui os últimos casos de corrupção no Congresso Nacional. Entre castelos, gastos astronômicos em telefonia e pagamento de passagens aéreas a aliados, parentes e namoradas, resta a antiga pergunta, ainda viva entre os escombros da moralidade nacional: políticos têm jeito? Provavelmente têm – ou terão quando a sociedade finalmente definir quais são os princípios que considera inegociáveis.

Até aqui, os brasileiros entoaram lamentos vários, ao longo de sua curta história republicana, mas mantêm, quem sabe até para conforto próprio, uma barafunda de vagos valores, alguns tão rasos que mais se parecem com uma manual de boas maneiras.

Ao cidadão contemporâneo tem cabido o ligeiro e intolerante pensar politicamente correto. O debate em torno de vícios evidentemente danosos à saúde é um exemplo. Ai do cidadão que fumar – será massacrado. Quanto ao que roubar dinheiro público, bem, se não for fumante terá grandes chances de tocar a vida sem maiores incômodos.

Evidentemente esse exemplo é uma metáfora. Pretende apenas mostrar o domínio do café pequeno sobre o debate, a supremacia do acessório sobre o principal. Nesse texto, porém, o foco não é saúde pública, e sim idéias públicas.

Os indignados dos dias que correm, sabe-se lá por que razão, são os das pequenas causas, embora mantenham a eloqüência própria ao papel que supõem interpretar. Fazem parte de uma confraria de gente aborrecida, a nos infernizar o cotidiano com seus manuais. Já sabemos que são um sucesso evolutivo, dado que sobrevivem e se reproduzem em qualquer ambiente de classe média. Mas definitivamente não devemos nos inspirar neles em assuntos de relevância.

Um bom começo seria aceitar que a corrupção (ou a retidão) é negociável no Brasil porque parte da sociedade, a mais influente, assim definiu. Depois, será preciso pensar em como sair dessa encrenca por vias constitucionais. Por fim, apenas para nossa diversão, seria bom chamar aquelas pessoas aborrecidas, as das pequenas causas urbanóides, para ajudar o debate sobre a grande causa – não vai aparecer nenhuma, fiquem tranqüilos; estarão todas ocupadas em trocar móveis todos os anos a título de “renovação pessoal” e em consumir o triplo do que precisam, mas sempre com ecobags para preservar o ambiente.

Por Liliana Pinheiro

 

Dois mil anos de gripe

 

O alerta global contra a gripe suína, variante do vírus influenza com índice de letalidade importante – algo em torno de 6% das vítimas morrem –, resgata um velho debate de biólogos e historiadores: quando, como e por que esse vírus nasceu?

 

O livro A história da humanidade contada pelos vírus, de Stefan Cunha Ujvari, infectologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, trata do tema. De acordo com o autor, pesquisadores da Pensilvânia estudaram o material genético de amostras do vírus influenza presentes em animais de diferentes continentes e construíram sua “árvore genealógica”. Calcularam o tempo das mutações e encontraram o tempo provável em que viveu o primeiro ancestral de todos os vírus de gripe: há cerca de 2 mil anos.

 

 A razão do surgimento do vírus parece estar relacionada à domesticação dos animais, que atingiu proporções até então inéditas no período assinalado. “Possivelmente as criações asiáticas de galinhas e porcos contribuíram para o maior número de vírus circulante entre diferentes espécies”, informa o autor. Da mesma forma, animais domesticados criaram condições para que os vírus atingissem o homem.

 

 Se a história se repetir, é provável que o Brasil não escape dessa nova onda global de influenza. O Brasil, segue o livro, conheceu em 1889 e 1890 um vírus da gripe surgido no sul da Rússia. Pessoas doentes embarcaram num paquete na cidade de Hamburgo, na Alemanha, e desembarcaram em Salvador. Em pouco tempo, metade da população soteropolitana estava doente. Quando chegou ao Rio, a gripe russa abateu de imediato d. Pedro II.

 

 Mais tarde, em 1918, durante a Primeira Guerra Mundial, a Europa sofreu novamente um ataque viral, desta vez de forma mais intensa. A gripe espanhola se alastrou rapidamente, justamente por conta dos deslocamentos de soldados recrutados para o conflito. Uma embarcação proveniente de Liverpool, com escalas em Recife, Salvador e Rio de Janeiro, foi o provável vetor da gripe espanhola no Brasil.

 

“O planeta ficou gripado”, conta Stefan Cunha Ujvari. “Cerca de 20 milhões de pessoas morreram”. O próprio autor, porém, lembra que o total pode ter sido de 40 milhões mundo afora, já que na época a notificação não era fácil.

 

Por Liliana Pinheiro 

 

Para saber mais:

A história da humanidade contada pelos vírus

Stefan Cunha Ujvari

Editora Contexto

208 páginas

R$ 37,00

A guerra é para os inexperientes

No início do século XVI, o teólogo holandês Erasmo de Roterdam lançou uma tese polêmica para a época: se os cristãos queriam de fato ganhar os turcos para a fé de Jesus, em vez de atacá-los militarmente deveriam mostrar aos muçulmanos que viviam de acordo com os verdadeiros valores pregados por Cristo.

Segundo Erasmo, ao fazerem bem aos próprios inimigos e demonstrarem tolerância invencível diante de todas as injúrias, desprezo pelo dinheiro e desinteresse pela glória, os cristãos estariam usando suas melhores armas contra os muçulmanos. Era preciso, afirmava o teólogo, oferecê-los a salvação, e não atacá-los para pilhar suas riquezas.

É claro que Erasmo estava falando de um contexto histórico absolutamente diferente do nosso, mas não deixa de ser interessante resgatar a reflexão desse teólogo em um momento em que, ao que parece, o mundo tenta se livrar do espírito de “cruzada” ressuscitado pelo governo de George W. Bush.

A política externa adotada pelo novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, parece estar colocando em prática os ensinamentos de Erasmo. Em menos de dois meses ele anunciou a retirada gradual das tropas americanas do Iraque, acenou para um diálogo com os rivais Síria e Irã e flexibilizou restrições a Cuba.

Em todas essas ações, Obama parece fazer exatamente o que Erasmo propunha: conquistar o adversário pelo convencimento, não pela guerra. Se substituirmos “ensinamentos de Cristo” por “valores democráticos” e “turcos” por “inimigos dos interesses americanos”, o paralelo se torna irresistível. Aliás, outro país que Obama tem buscado como aliado é justamente... a Turquia!

Se Bush tivesse lido Erasmo talvez se desse conta de que os malabarismos retóricos que usou para justificar a invasão do Iraque não enganam ninguém há pelo menos cinco séculos. Dizia o teólogo sobre os príncipes cristãos de sua época: “Morro de sede do ouro dos turcos e, tomando como pretexto a defesa da religião e condescendendo com o meu ódio, invoco o direito da Igreja.” Substitua “defesa da religião” por “defesa da democracia”, “direito da Igreja” por “guerra preventiva” e a “doutrina Bush” aparece formulada de forma cristalina em pleno século XVI. Como diria Erasmo, a guerra é para os inexperientes.    

Por Bruno Fiuza

Terremoto na Itália: a destruição da Nova Jerusalém

 

Em 1229 o sacro imperador romano-germânico Frederico II reconquistou Jerusalém, na época dominada pelos muçulmanos. Empolgado com o triunfo militar, ele decidiu criar uma nova cidade na Itália que deveria se tornar uma nova Jerusalém, localizada a meros 90 km de Roma, para se contrapor ao poder do papa. Essa cidade foi fundada em 1254 por Conrado IV, filho de Frederico, e recebeu o nome de Áquila.

 

A partir do último dia 6 de abril, essa mesma Áquila foi devastada por uma série de terremotos que já fizeram mais de 200 mortos. Além das centenas de vidas ceifadas, os tremores de terra provocaram uma tragédia histórica. O rico patrimônio da cidade, formado ao longo de mais de 700 anos, sofreu danos irreparáveis.

 

Entre as “vítimas de concreto” estão a basílica de Santa Maria di Collemaggio, onde o papa Celestino V foi coroado em 1294; e o Forte Spagonlo, construído em 1534 pelos homens do imperador Carlos V, que conquistara a cidade seis anos antes.

 

Por desafiar o poder do Vaticano, Frederico II foi excomungado pelo papa Gregório IX. O pontífice chegou a afirmar que o imperador era o próprio anticristo. Quando Frederico II morreu, em dezembro de 1250, surgiu a lenda de que ele estaria apenas dormindo, e que um dia voltaria a governar seu antigo império.

 

Seria o terremoto de Áquila a destruição da Nova Jerusalém e o anúncio do retorno do anticristo?

 

Por Bruno Fiuza

 

Quem tem saudade da ditadura militar?

 

No último dia 31 de março, o Rio de Janeiro assistiu a uma manifestação desconcertante: cerca de 200 oficiais das Forças Armadas se reuniram no Clube Militar da cidade para celebrar os 45 anos do que eles chamam de “Revolução Redentora” de 1964. Nas cabeças desses homens, aquele ato heróico salvou o Brasil de cair nas garras do “totalitarismo comunista” e inaugurou uma era de prosperidade – país registrou os maiores índices de crescimento econômico da história.

 

Alguém desavisado, se passasse diante do Clube Militar, certamente ficaria confuso. Afinal de contas, como um regime tão virtuoso pode ser repudiado por boa parte dos brasileiros hoje.

   

Na Espanha, a morte de Franco só é celebrada nos porões da ultra-direita, longe da sociedade. Na Áustria, a simples negação do Holocausto já é motivo suficiente para levar alguém à prisão. No Brasil, no entanto, o maior jornal do país, a Folha de S. Paulo, chegou a se referir ao regime militar - que aterrorizou a população por pelo menos uma década – como uma “ditabranda”, em comparação com a violência de seus equivalentes latino-americanos. Depois, pressionada pela opinião pública, declarou que a escolha da palavra foi inadequada.       

  

A relação da grande imprensa brasileira com o golpe militar foi, no passado, promíscua. E a Folha, embora sempre lembrada, nem mesmo foi a mais ativa no apoio ao regime. Em novembro de 2007 a jornalista Cristiane Costa publicou no blog da saudosa revista BrHistória um levantamento de como os principais jornais da época noticiaram e comentaram a “Revolução” de 1964. O levantamento completo pode ser acessado em http://blogdabrhistoria.blog.uol.com.br/). O que segue são só alguns exemplos:

“Desde ontem se instalou no País a verdadeira legalidade ... Legalidade que o caudilho não quis preservar, violando-a no que de mais fundamental ela tem: a disciplina e a hierarquia militares. A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas”
(Editorial do Jornal do Brasil - Rio de Janeiro - 1º de Abril de 1964)

“Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos”
“Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais”
(O Globo - Rio de Janeiro - 2 de Abril de 1964)

“A população de Copacabana saiu às ruas, em verdadeiro carnaval, saudando as tropas do Exército. Chuvas de papéis picados caíam das janelas dos edifícios enquanto o povo dava vazão, nas ruas, ao seu contentamento”
(O Dia - Rio de Janeiro - 2 de Abril de 1964)

“Milhares de pessoas compareceram, ontem, às solenidades que marcaram a posse do marechal Humberto Castelo Branco na Presidência da República ...
O ato de posse do presidente Castelo Branco revestiu-se do mais alto sentido democrático, tal o apoio que obteve”

(Correio Braziliense - Brasília - 16 de Abril de 1964)

Voltando a 2009: celebrar o golpe militar de 1964 e minimizar o mal que a ditadura fez ao país só pode ser resultado de duas coisas: desconhecimento da história do Brasil ou simplesmente má-fé. Como justificar um regime que fez um governo de exceção, acabou com as liberdades democráticas, perseguiu de forma indiscriminada cidadãos e abortou o debate em torno de um projeto de desenvolvimento autônomo do país?      

Jango não era comunista. Advogava a ampliação de direitos de uma população que historicamente fora excluída de qualquer tipo de participação na vida política, social e econômica do Brasil. Só que mesmo esse mínimo foi demais para a elite brasileira. Ao comemorar e relativizar os efeitos do golpe de 1964, representantes dessa elite mostram que mudaram pouco nos últimos 45 anos.

Por Bruno Fiuza

 

 

Passado incerto

A notícia: arqueólogos iraquianos anunciaram nesta quarta-feira, 1º de abril, a descoberta de 4 mil artefatos, em sua maioria da antiguidade babilônica. São carimbos reais, talismãs e tabuletas de argila marcadas em escrita cuneiforme sumeriana, a mais antiga forma conhecida de escrita. Também foram encontrados artefatos do Império Persa e outros de cidades islâmicas medievais.

O regozijo: e segue a reportagem, a lembrar da Mesopotâmia antiga, entre os rios Tigre e Eufrates, berço da civilização e zona de tesouros aparentemente inesgotáveis, que de tempos em tempos emergem pelas mãos de dedicados arqueólogos e seguem para o Museu Nacional, em Bagdá. A sensação é de conforto, regozijo – temos, homens e mulheres, um pouco mais de história que nos conforte diante do futuro incerto.

O medo: o prazer de ler essa notícia, infelizmente, não dura. Inevitavelmente vem à mente a imagem do Museu Nacional de Bagdá atacado por saqueadores, durante a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Sumiram 15 mil artefatos; apenas 6 mil foram recuperados. Poderia acontecer de novo uma guerra que danificasse esse ou outro museu, essa ou outra região que guardasse nossa história, aquela que nos conforta diante do tal futuro incerto?

Reconheçamos que um sistema que torna até o passado incerto, às vezes, precisa ser profundamente questionado.

Por Liliana Pinheiro

 

Liberdade econômica com repressão política

A estranha fórmula que está levando a China a uma posição de liderança no mundo – com países centrais dependentes de seu mercado e de seus investimentos para financiar as próprias dívidas – pariu mais aberração nos últimos dias. O ex-militar chinês Zhang Shijun foi preso por divulgar carta que enviou ao presidente Hu Jintao pedindo investigações sobre o massacre na Praça da Paz Celestial. Shijun se junta a outras dezenas de nomes, que apodrecem sem direito a defesa nos porões do poder do Partido Comunista há mais de 50 anos.

A economia chinesa, liberada das amarras socialistas, vem crescendo a taxas espantosas há muitos anos. Mesmo na atual crise, os índices (a se acreditar neles, pois todo dado vindo da China deve ser visto com lupa) ainda impressionam, até pela distância do ritmo de expansão de outros países. A política chinesa, contudo, permanece muito bem atrelada aos modelos opressivos que caracterizaram o regime soviético – e ainda caracteriza o cubano. Direitos humanos são assunto incômodo e proibido nessa próspera fatia do Oriente.  

O massacre na Paz Celestial ocorreu em 1989.  Em 4 de junho vão se completar 20 anos, sem que haja reparação para as famílias das vítimas ou explicação para a comunidade internacional. Os responsáveis nunca foram punidos. Naquele dia, cerca de 100 mil estudantes participavam de um protesto contra a repressão e a corrupção governamentais. Perto de 3 mil foram mortos pelo exército e dezenas foram presos – aguardam até hoje uma anistia. A pressão internacional para que sejam retirados das prisões, cujas condições o mundo desconhece, como quase tudo o que ocorre na China, pelo visto está tendo efeito nulo.

De fato, há que se desconfiar da eficácia dessa pressão internacional, já que governo nenhum parece em condições de colocar a mão nessa cumbuca política. Há países demais dependentes daquele mercado. O dinheiro que vem do Oriente também banca as emissões de títulos dos governos ocidentais – os Estados Unidos são fregueses habituais dessa mina de riquezas, produzidas por mão-de-obra chinesa superexplorada.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, na sua edição de 16 de março último, “a China continuou sendo em janeiro a maior detentora de títulos do Tesouro dos EUA, tendo elevado sua posição em US$ 12,2 bilhões em tais papéis naquele mês para US$ 739,6 bilhões, segundo dados divulgados pelo Departamento do Tesouro”.

por Liliana Pinheiro

 

Por que ler Hobsbawm?

 

É muito difícil encontrar um intelectual que seja um consenso acima de posições políticas, origem social, credo religioso etc. O britânico Eric J. Hobsbawm chega perto de ser um desses raríssimos casos. O relançamento, pela Companhia das Letras, de O novo século é um convite para revisitar a obra dessa verdadeira lenda viva. No livro, que é a transcrição de uma entrevista concedida por Hobsbawm ao jornalista italiano Antonio Polito em 1999, o historiador britânico apresenta um rico e lúcido prognóstico sobre o mundo às portas do século XXI.

 

Nascido em Alexandria, no Egito, em 1917, Hobsbawm se tornou um ícone pop por conseguir fazer, como poucos, a ponte entre as áridas pesquisas de ponta produzidas na academia e o grande público. Ao longo de mais de 50 anos de carreira, ele se destacou por ser aquilo que o jargão acadêmico chama de “historiador de síntese”. Ou seja: além das pesquisas que ele mesmo desenvolve, Hobsbawm se tornou um erudito capaz de condensar o resultado de estudos sobre os mais variados temas em obras que apresentam uma visão de conjunto sobre um determinado período histórico.

 

Ao adotar essas abordagens amplas, apresentou uma leitura da história contemporânea que até hoje orienta os estudos de pesquisadores em todo o mundo. Ele divide a história dos séculos XIX e XX em quatro grandes eras: a das revoluções, a do capital, a dos impérios e a dos extremos.

 

Não por acaso esses são os títulos dos volumes que compõem a sua “quadrilogia” clássica. Em A era das revoluções ele analisa o período das grandes transformações desencadeadas pela Revolução Francesa no fim do século XVIII, evento fundador do mundo contemporânea; em seguida ele esmiúça o processo de desenvolvimento do capitalismo na Europa entre 1848 e 1875 em A era do capital; na seqüência vem A era dos impérios, obra na qual explica as origens e as conseqüências do imperialismo do final do século XIX e início do XX. A série termina com o seu livro mais famoso, A era dos extremos, no qual faz uma brilhante radiografia do mundo bipolar do século XX, que segundo ele começou em 1914, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, e terminou em 1991, com o colapso do socialismo real e o fim da União Soviética.

 

Se Hobsbawm tivesse parado por aí já seria o suficiente para colocá-lo na galeria dos grandes historiadores do século XX, ao lado de Lucien Fevbre, Marc Bloch, Jacques Le Goff, E.P. Thompson e tantos outros. O que o diferencia dos demais, no entanto, é que Hobsbawm continua vivo e bastante ativo.

 

É isso o que torna O novo século tão instigante: das páginas do livro surge um intelectual em sintonia com seu tempo, que não tem medo de usar a história para explicar o mundo em que vivemos hoje. E faz isso com maestria, diga-se de passagem.

Ler O novo século hoje é ainda mais interessante do que na época em que foi lançado originalmente, em 2000. Agora, as “profecias” feitas por Hobsbawm na virada do milênio podem ser confrontadas com as análises que ele mesmo fez já dos primeiros anos do século XXI em seu último livro, Globalização, democracia e terrorismo, publicado também pela Companhia das Letras no final de 2007.

 

 

Ao lado de suas obras clássicas, esses dois livros mais recentes fazem de Hobsbawm um sério candidato a se tornar não só um dos maiores historiadores do século XX, mas também do início do século XXI. Mas isso, só a história poderá julgar.

 

Por Bruno Fiuza

 

 

20 anos do advento do WWW

A palavra “advento” embute um sentido religioso, como mostram os dicionários. Um significado derivado de religião, aliás, seria “religar” (viria de religo, do latim). É bom lembrar, porém, que lingüistas ainda não se entenderam perfeitamente sobre essa raiz e essa derivação, já tão popularizadas que será difícil revê-las, diga-se. De todo modo, advento traduz, com toda a certeza, a esperança presente dos homens em certa glória no porvir.

Por isso, não é demais falar no “advento” da sigla WWW, ocorrido há 20 anos. A rede mundial de computadores, com tão tenra idade, abriu todas as portas do mundo para o relacionamento, a troca e a partilha de informações (dados, imagens e sons) e, principalmente, para a consciência de que estamos, finalmente, religados com todos os homens e mesmo com as comunidades mais remotas. Basta digitar o famoso WWW (Word Wide Web, na sigla em inglês).

Quando a rede surgiu, em 1989, muitos não a entenderam e se revestiram do temor diante do desconhecido, mas nem por isso a reverenciaram menos. Os que vislumbraram a potencialidade daquela estranha ferramenta se uniram na reverência, ainda que por razões opostas. De todo modo, todos sabiam estar diante de algo que dominaria o mundo. Até seus inventores Tim Berners-Lee e Robert Cailliau. “Senão não a teríamos chamado de World Wide Web [rede mundial] antes mesmo de ter qualquer código em funcionamento”, disse Cailliau ao jornal Folha de S.Paulo.

A web nasceu na Suíça, em março daquele ano, no famoso laboratório Cern (Organização Europeia de Pesquisa Nuclear), o centro que desenvolveu o acelerador de partículas Grande Colisor de Hádrons (LHC na sigla em inglês). A internet já existia em 1989, mas era restrita ao círculo acadêmico. O WWW democratizou o acesso à rede.

Um dia, os historiadores se debruçarão sobre o impacto dessa revolução tecnológica no planeta, que ainda estamos muito longe de perceber por inteiro.

Por Liliana Pinheiro  

O “filho de algo”

A política atual brasileira acaba de resgatar da monarquia portuguesa de antanho o conceito de “fidalgo”, palavra derivada da aglutinação “filho de algo”. No passado, a designação foi usada como categoria formal, na qual se encaixavam os homens ricos. Os fidalgos podiam não ter títulos de nobreza, mas uma vez reconhecidos como “filhos de algo” ou de “alguém” importante, ganhavam privilégios nos campos político e jurídico.

Essa explicação vem a propósito da declaração do secretário de Segurança Pública de São Paulo, Ronaldo Marzagão, sobre o ex-secretário adjunto da Pasta, Lauro Malheiros Neto, suspeito de integrar um esquema de venda de cargos na Polícia Civil Paulista.

Diz Marzagão sobre Malheiros, em reportagem publicada no jornal Folha de S.Paulo desta quinta-feira: “Nunca soube nada a respeito do doutor Lauro Malheiros. Ele vem de uma família de juristas ilustres, tem uma linhagem ilustre, com o avô desembargador, o pai um advogado ilustre, ele também um advogado, nunca soube nada a respeito dele”, afirmou o secretário.

Não se trata aqui de pré-julgar Malheiros ou de sacrificar Marzagão pelo exercício de opinião, mas sim de apontar o viciado – e vencido – pensamento brasileiro de elite. Pessoas minimante republicanas e contemporâneas só têm coragem de usar a expressão “linhagem ilustre” no contexto de uma exposição de animais de raça.

Por Liliana Pinheiro

 

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