Quase 300 obras de Picasso descobertas na França

 

Em janeiro desse ano, um eletricista aposentado entrou em contato com Claude Picasso, filho do pintor espanhol e responsável por administrar sua obra, para pedir o certificado de autenticidade de alguns trabalhos que possuía, supostamente saídos da mão do mestre. O que não se esperava é que o eletricista aparecesse com 270 obras de Picasso, que supostamente o teria presenteado por serviços prestados nas diversas casas que o artista ocupou durante sua estadia na França.

As autoridades do país investigam a procedência dos trabalhos (a autenticidade já foi comprovada) e há suspeitas até de roubo por parte do aposentado. Veja uma matéria do Estadão sobre o caso nesse link:

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,obras-ineditas-de-picasso-sao-encontradas-na-franca,646934,0.htm

O que há de histórico nas aventuras de Asterix?


Confira um artigo do professor Túlio Vilela publicado no portal UOL Educação que analisa as histórias em quadrinhos de Asterix. No gibi, o gaulês e sua tribo resistem bravamente às tentativas de invasão por parte dos romanos, além de entrarem em contato com diversos povos da Antiguidade como egípcios, gregos e bretões.

É claro que as aventuras em quadrinhos criadas por René Goscinny e Albert Uderzo são fictícias, mas personagens inesquecíveis como Asterix, Obelix e Panoramix enfrentam situações que dizem muito sobre a história do mundo antigo e, sobretudo, sobre o conturbado mundo em que os gibis foram criados. Entenda melhor essas relações acessando esse link:

http://educacao.uol.com.br/historia/ult1690u37.jhtm

 

Por Pietro Henrique Delallibera

 

 

 

Lista de Patrimônios em Perigo da Unesco é atualizada durante o encontro

 

 

Nos últimos dias, a 34ª Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco tem trabalhado para rever a sua lista de Patrimônios em Perigo. A entidade inclui nessa relação qualquer bem cultural por ela tombado que sofra algum tipo de ameaça à sua preservação. A lista pode abarcar desde edifícios históricos que não passam por manutenção correta a zonas florestais postas em risco por um processo intenso de urbanização.

 

Por enquanto, a Unesco divulgou seis bens que, de acordo com os representantes reunidos, entraram para a relação: a floresta subtropical de Madagascar; a Catedral Bagrati e o Monastério Gelati, ambos na Geórgia; os túmulos dos reis de Buganda, em Kasubi (Uganda); e o Parque Nacional de Everglades, nos Estados Unidos. O destaque fica por conta deste último, pois sua inclusão na lista de patrimônios em perigo foi feita pelos próprios representantes do governo americano.

 

Por outro lado, a agência já anunciou que dois patrimônios estão fora do grupo de bens ameaçados. O primeiro deles é a cidade de Machu Pichu, no Peru. O segundo é o ecossistema das Ilhas Galápagos, que até então estava na lista e foi retirado.

 

Não há previsão ainda de quando será finalizada a avaliação de todos os bens que podem entrar ou sair da lista de patrimônios ameaçados.

 

 

 

Por Pietro Henrique Delallibera

Brasil terá centro de formação de gestores do patrimônio cultural

 

 

TERÇA-FEIRA, 27/07 - O Ministro da Cultura, Juca Ferreira, e a diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, assinaram ontem documento que estabelece a criação do Centro Regional de Formação para Gestão do Patrimônio. A criação desse órgão já havia sido aprovada durante a 35ª Conferência Geral da Unesco, que ocorreu no ano passado na França, e sua oficialização era uma das principais expectativas da 34ª Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco, que acontece na capital federal.

 

O governo já anunciou que o centro oferecerá, a partir do ano que vem, cursos para 17 países sul-americanos e africanos com quem mantemos cooperação técnica. O foco dessas ações será a formação de profissionais capacitados na área de gestão dos bens culturais.

 

As principais metas do órgão serão promover a capacitação profissional e aprimorar os instrumentos de gestão do patrimônio. Com isso, a entidade busca contribuir para a plena implementação das Convenções da Unesco para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural, de 1972, para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, de 2003, e para a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, de 2005.

 

 

 

Por Pietro Henrique Delallibera

Reunião do Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco começa em Brasília

 

 

Entre os dias 25 de julho e 3 de agosto, Brasília é a sede da 34ª Sessão do Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). O encontro, segundo da história a ocorrer na capital federal, reúne cerca de 800 participantes vindos de 187 Estados Parte, ou seja, países comprometidos com as diretrizes firmadas pela agência internacional para a proteção do patrimônio da humanidade.

 

Durante os 12 dias de reunião, os participantes estão analisando a possibilidade de inclusão de 41 novos itens na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco; esses candidatos, que podem ser bens naturais, culturais ou mistos, foram apresentados por 35 diferentes países. O grupo também vai avaliar o estado de conservação de 31 bens que, embora já tenham conquistado esse reconhecimento, estão na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo. Os membros da reunião podem também decidir incluir novos bens que necessitem de atenção especial nessa lista.

 

Outra pauta importante desse encontro é a mudança nos critérios de seleção dos bens considerados patrimônios mundiais. Atualmente, as comissões analisam os candidatos ao título por meio de quatro critérios: a credibilidade do bem, ou seja, a certeza de que se trata de um objeto original e verdadeiramente único; o seu estado de conservação; sua capacitação para atender às demandas de turismo, educação etc.; e o seu grau de comunicação com a comunidade externa. A delegação brasileira irá lutar para que o quesito “cooperação” volte à pauta da Unesco, incentivando assim as ações conjuntas entre os países para a manutenção de seus bens culturais.

 

 

 

Por Pietro Henrique Delallibera

Um brinde à Revolução Francesa!

Durante toda sua vida, Friedrich Hegel (1770-1831), um dos maiores filósofos alemães do século XIX, reuniu os amigos no dia 14 de julho de cada ano para brindar à Revolução Francesa. O ritual não era uma mera extravagância do pensador. De acordo com a sua concepção de história, a queda da Bastilha marcava o início de uma era em que a liberdade, finalmente, havia conseguido se sobrepor às várias formas de tirania que dominaram o espírito humano ao longo dos séculos.

É claro que, vista a partir de hoje, a posição de Hegel pode ser considerada bastante ingênua. Há muito tempo sabemos que a Revolução Francesa não foi o triunfo final da liberdade nem a libertação completa da humanidade. Muitos pensadores, desde então, denunciaram as mazelas do movimento - os excessos do Terror, a substituição da nobreza pela burguesia como classe opressora, etc -, mas o gesto de Hegel continua válido. 

Apesar de todas as suas limitações, o movimento iniciado em 14 de julho de 1789 mostrou ao mundo que o privilégio, por mais entranhado que esteja em uma sociedade, nunca será capaz de resistir à ação de um povo que decide tomar a história em suas mãos. Isso se aplica à França do século XVIII, se aplicava à Alemanha de Hegel e certamente se aplica ao Brasil atual. É por isso que hoje é um dia para se comemorar. Um brinde à Revolução Francesa!  

Por Bruno Fiuza

 

O ano de Mandela

 

O ano da Copa do Mundo na África do Sul é um bom momento para refletir sobre o apartheid e o papel do grande líder Nelson Mandela. Na guerrilha, na prisão e na Presidência do país, ele deu um basta à segregação entre brancos e negros.

 

O regime derrotado exibia uma crueldade elaborada. Havia, por exemplo, um esforço institucional para rebaixar a já pequena escolaridade dos negros e roubar-lhes por completo a cidadania. História Viva dedica um artigo ao assunto também porque neste ano se comemoram os 20 anos da libertação de Mandela.

 

O dossiê do mês trata de outro assunto, as cruzadas, com a proposta de desvendar aspectos desconhecidos (e nem um pouco religiosos) das guerras santas. Vale a pena acompanhar as novas interpretações dos historiadores sobre os acontecimentos da época marcados por cruz, espada e muita ambição.

 

Como em todos os meses, a edição apresenta alguns textos mais curtos, espécie de janelas para penetrar nas crônicas escritas pela humanidade ao longo dos séculos. Desta vez, a escolha dos temas obedeceu a certo “espírito de fevereiro” – de verão e viagens, de alegrias e tragédias.

 

A história da cerveja, que já no tempo das pirâmides divertia do escravo ao faraó, segue esse critério. Assim como a gloriosa e trágica experiência de Saint-Pierre, na Martinica, destruída por um vulcão. Afrancesada e com ares de paraíso, essa Pompeia caraíba segue irresistível – e perigosa. Do Caribe para a Grécia: um “mochileiro” do século II ensina o que apreciar em uma viagem por tão antigas plagas.

 

 

 

Por Liliana Pinheiro

 

 

Avatar, fábula anticolonialista

 

Além de um bom filme de ficção, Avatar é uma fascinante lição de história. Ao narrar as agruras de um povo nativo de um planeta distante – os na’vi de Pandora – o diretor James Cameron criou, na verdade, uma alegoria de um capítulo muito conhecido da trajetória do nosso próprio mundo: o do colonialismo.

 

Basta fazer um teste: substitua “Pandora” por “América”, “África” ou “Oceania”; “na’vi” por “incas”, “maias”, “astecas”, “guaranis”, “moicanos”, “iorubás”, “malinkés”, “ibos”, “haussás”, “sussus”, “zulus” ou “maoris”; “povos do céu” por “portugueses”, “espanhóis”, “ingleses”, “franceses”, “holandeses” ou “americanos”.

 

Tente trocar os termos em qualquer momento em que eles aparecem no filme, e a alegoria fica evidente. Está tudo ali: uma potência estrangeira, militarmente superior, se instala em um ambiente considerado selvagem pelos ocupantes, para explorar os recursos naturais da região. As peculiaridades da vida local são encaradas pelo invasor como manifestações de primitivismo, já que os forasteiros se acham portadores da civilização e do progresso. Qualquer tentativa da população local de proteger sua terra, sua cultura e seus valores é vista pelos colonizadores como um entrave aos interesses econômicos em jogo, e deve ser imediatamente eliminada.

 

Como o ambiente colonial é hostil ao colonizador, ele obviamente não consegue eliminar de uma hora para a outra a população local. É aí que entram os cientistas, responsáveis por estudar as populações locais e fornecer as informações necessárias para ajudar os militares a penetrar em regiões até então inacessíveis. Por acaso há alguma grande diferença entre a personagem de Sigourney Weaver no filme e os antropólogos europeus que eram enviados às colônias no século XIX para estudar o modo de vida das populações primitivas?

 

Os paralelos são inúmeros, e se poderia passar um dia inteiro estabelecendo comparações entre a ficção de Cameron e a realidade da Terra nos séculos XVIII, XIX, XX e XXI. Espere... XXI? Sim, e é nesse ponto que a repercussão do filme se torna extremamente interessante. O fato de Avatar ter despertado a ira tanto dos blogs da extrema direita americana quanto das autoridades chinesas diz muito sobre os tempos em que vivemos.

 

Por ironia do destino, quem denunciou a atualidade e relevância do tema tratado pelo fime foi justamente a direita americana, ao cometer um ato-falho acusando a obra de ser uma crítica velada à Guerra do Iraque. Ora, se James Cameron escreveu esse roteiro há 15 anos, ou seja, em 1994, ele só poderia estar falando da atual Guerra do Iraque se tivesse uma bola de cristal. Talvez ele tivesse em mente a primeira Guerra do Golfo, ou a ação das multinacionais que já naquela época se instalavam no Terceiro Mundo e expulsavam populações locais de seus lares em busca de recursos naturais... Seja como for, tudo isso fica no campo da especulação.

 

O certo é que, em pleno fim do século XX, o colonialismo continuava muito vivo, a ponto de inspirar um diretor de Hollywood a criar uma fábula sobre o tema. Ao acusar Cameron de produzir um libelo contra a Guerra do Iraque, a direita americana apenas confirma aquilo que vem tentando negar desde 2003: que a invasão do país árabe, desde o começo, nada mais foi do que um empreendimento colonialista em busca de recursos naturais, exatamente como os europeus faziam no século XIX... e eram tão criticados pelos americanos da época.

 

 

Por Bruno Fiuza

 

O apocalipse, quem diria, pode ser bom

História Viva acaba de lançar, em bancas e livrarias, uma edição extra, Religião – 50 mentiras que contaram para você. Só existe na versão pocket, entre outras coisas, para tornar seu preço acessível a um maior número de pessoas (68 páginas a R$ 8,90).

A revista é um deleite. Em qualquer página que se abre, há uma abordagem interessante, uma visão de estudiosos a desmascarar interpretações erradas, preconceitos e criações (eruditas ou populares) que não têm correspondência com as escrituras ou a própria história.

Idéias pré-concebidas – e falsas – sobre o judaísmo, o cristianismo, o islamismo e o budismo vão sendo expostas, com muita precisão e a leveza possível. E, como é irresistível quando se folheia publicações desse tipo, com apenas um texto por página, a leitura se dá de forma salteada, sem ordem, pautada pelo acaso e pelo prazer.

Acabo de folhear meu exemplar. Abri aleatoriamente na página 21, que traz a seguinte afirmação no título: “Apocalipse significa catástrofe”. Em seguida, há um carimbo: “Falso!”

Como assim falso? Com que então, depois de uma longa vida processando na mente, é verdade que em segundo plano, o temor de um juízo final feito de desastres de água e fogo, de guerra, fome, miséria e doença, descubro que a “apocalipse” não vem da palavra grega apokalupsis, ou seja, cataclismo. Apocalipse significa, no mesmo grego, “descobrimento”, “revelação”. Muito melhor.

O exercício continua. Mais uma página aberta sem compromisso. Agora é a 37, que se refere ao judaísmo. “Eva foi a primeira mulher”. E de novo o carimbo: “Falso!” Antes de Eva, que sempre pareceu tão do bem para carregar todo o pecado do mundo, havia Lilith, a primeira esposa de Adão. Um demônio essa Lilith – a verdadeira responsável pela história do fruto proibido. Muito melhor assim.

por Liliana Pinheiro

 

Cinquenta anos de luta contra o subdesenvolvimento

 

A Companhia das Letras está trazendo de volta ao mercado editorial um dos maiores clássicos das ciências sociais brasileiras. Chega às livrarias este mês a edição comemorativa de 50 anos de Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado. Para marcar o lançamento, a editora promove nesta quinta-feira, 05 de novembro, em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros da USP, um debate com o historiador Fernando Novais, o economista Paul Singer e a ex-mulher de Celso Furtado, Rosa Freire D’Aguiar.

 

Publicado originalmente em 1959, Formação Econômica do Brasil apresenta as raízes profundas do subdesenvolvimento econômico do país. Mas não apenas isso: a obra é a mais importante contribuição de um intelectual que lutou a vida inteira para ajudar a nação a superar os entraves que barravam seu desenvolvimento autônomo.

 

Na época, Celso Furtado era um dos integrantes da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) e buscava aplicar os princípios do desenvolvimentismo pregados pela instituição à sua terra natal. Corria a década de 1950, e o Brasil ainda era o “país do futuro”. O governo de Juscelino Kubitschek prometia fazer com que a nação avançasse “50 anos em 5” e a promessa de se tornar uma economia avançada parecia uma realidade palpável.

 

Foi nesse contexto que Furtado publicou aquela que se tornaria sua obra-prima. Para o economista, o caminho rumo ao desenvolvimento pleno da economia passava por uma industrialização amparada por uma forte intervenção do Estado. O objetivo era superar o modelo agroexportador e criar no Brasil a infraestrutura necessária para a produção de bens até então importados.

 

As reformas defendidas por Furtado foram inicialmente adotadas pelos governos Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart, mas com o golpe militar de 1964 a heterodoxia econômica passou a ser vista com suspeitas. A partir da década de 1980, o desenvolvimentismo caiu em total descrédito, abrindo espaço para a desindustrialização e um retorno parcial ao modelo agroexportador na década de 1990.

 

O livro de Celso Furtado volta às livrarias em um momento estratégico, em que, após mais de 20 anos de hegemonia neoliberal, o debate econômico no Brasil volta a abrir espaço para algumas teses desenvolvimentistas. É por isso que, mais de 50 anos após sua publicação, a obra continua sendo um instrumento fundamental na secular luta contra o subdesenvolvimento no país.   

 

Lançamento da edição comemorativa de 50 anos de Formação Econômica do Brasil

Quando: Quinta-feira, 05 de novembro, às 17h30

Onde: Instituto de Estudos Brasileiros – USP

Endereço: Avenida Professor Mello de Moraes, Travessa 8, nº 140 – Cidade Universitária – São Paulo, SP

Informações: 3091-1149

 

 

 

Por Bruno Fiuza

O medo e o erro

Um artigo do escritor Juan Goytisolo, publicado no jornal espanhol El País no dia 18 de outubro, informa que a abertura dos arquivos do Foreign Office, com documentos do período imediatamente anterior à queda do Muro de Berlim, confirma que François Mitterrand e Margaret Thatcher tinham severas restrições à reunificação imediata da Alemanha, dividida pela Guerra Fria.

De que tinham medo? De um expansionismo alemão nos moldes do que havia tentado Hitler décadas antes. De acordo com Goytisolo, o presidente francês, por exemplo, "temia que os governos da França e Grã-Bretanha ficassem na mesma situação que seus antecessores nos anos 30 e ante a qual não souberam reagir".

O muro caiu, e a Alemanha foi reunificada em curto espaço de tempo, desmentindo o vaticínio da volta do nacionalismo e do espírito de germanização que havia colhido o povo alemão no passado.

A explicação para essa (boa) reversão de expectativas está em parte no perfil da população alemã nos dias que correm. Imigrantes de muitas cores e culturas compõem a fatia social trabalhadora do país e são alheios às maluquices envolvendo o polêmico conceito de “raça”, com seus repugnantes qualitativos de superioridade ou inferioridade.

Para ler artigo do El País (em espanhol), clique no link abaixo:

http://www.elpais.com/articulo/opinion/Mitterrand/reunificacion/alemana/elpepiopi/20091018elpepiopi_4/Tes/

Por Liliana Pinheiro

O Ministério da Saúde adverte...

 

O Ministério da Saúde adverte: publicidade pode fazer mal à saúde... ou pelo menos podia, até a década de 1950. Isso é o que mostra uma interessante exposição que entra em cartaz hoje no Conjunto Nacional. “Propaganda de cigarro. Como a indústria enganou você” traz 63 reproduções de campanhas veiculadas nos Estados Unidos entre os anos 20 e 50.

 

Vale a pena contemplar as peças de perto para ver até que ponto chegou a indústria do tabaco na primeira década do século XX. Para quem quiser se aprofundar no assunto, está no ar, no site de História Viva, um artigo assinado pela pesquisadora Maria Berenice da Costa Machado que conta um pouco da história da publicidade na época do vale-tudo promovido pela indústria do cigarro. O artigo é ilustrado, justamente, com reproduções de algumas das campanhas que integram a mostra. A matéria pode ser acessa no seguinte endereço eletrônico:

 

http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/o_lado_perverso_da_persuasao.html

 

Por Bruno Fiuza

O poder da velha “língua pátria”

O jornal O Estado de S. Paulo publicou na última segunda-feira (21/9) uma emblemática reportagem: os governos de países da ex-União Soviética estão rebaixando o idioma russo e estimulando o uso de suas línguas originais.

O diário dá como exemplo a Ucrânia: “Num canto da livraria Bukvatoriya, localizada nesta capital da península da Crimeia, há estantes repletas de obras literárias tão provocativas para o Kremlin quanto um batalhão de soldados da Otan. Os livros são clássicos - de autoria de Oscar Wilde, Victor Hugo, Mark Twain e Shakespeare - que foram traduzidos para o ucraniano, em edições destinadas ao público adolescente. Um Harry Potter que lança feitiços em ucraniano também está presente nas prateleiras.”

Na origem da iniciativa ucraniana há razões políticas – deixar no passado a obrigatória orientação de Moscou nos assuntos internos do país. O mesmo fenômeno está em curso em quase todo o ex-bloco soviético. Já a aceitação popular tem razões mais complexas do que a política, como a necessidade de regatar a identidade nacional, que pela força foi mitigada nos tempos da Guerra Fria.

“O russo é um dos poucos grandes idiomas a perder adeptos e, segundo estimativas, o total de pessoas fluentes no russo cairá para 150 milhões até 2025, um grande declínio em relação aos 300 milhões de versados no russo que havia em 1990, um ano antes do colapso soviético”, segue o Estadão.

Os fatos expostos na reportagem dão o que pensar. Especialmente em um Brasil em que muitos sites, blogs e mesmo colunistas de jornais e revistas impressos não se dão nem mais ao trabalho de traduzir para o português as citações em outros idiomas que fazem em seus textos. Alguns simplesmente fazem de conta que o país é bilíngüe e consideram qualquer reclamação um libelo antiglobalização ou expressão de minoria remanescente dos idos tempos em que havia uma disciplina nas escolas públicas chamada “Língua Pátria”.

Não se trata de defender nacionalismos tolos, mas um pouco de apreço pela língua e, principalmente, de respeito pela maioria cairia bem aos escrevinhadores brasileiros. 

Para ler a reportagem completa:

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,idioma-russo-entra-em-declinio-na-antiga-urss,438381,0.htm

Por Liliana Pinheiro

Os bilhetes de Getúlio

 

No dia do aniversário de 55 anos da morte de Getúlio Vargas, o jornal Folha de S.Paulo revela o paradeiro de 454 bilhetes escritos pelo ex-presidente para o seu chefe da Casa Civil, Lourival Fontes, em 1951. São mensagens que Vargas enviou a seus ministros e funcionários durante os quatro anos em que governou o país como presidente eleito democraticamente, entre 1951 e 1954.

 

Os documentos fazem parte de um grande acervo de mensagens que Fontes guardou para a posteridade. Em 1966 ele revelou a existência desse arquivo para o repórter Glauco Carneiro, da revista O Cruzeiro, mas o conteúdo dessas mensagens permaneceu desconhecido, por iniciativa do próprio Fontes. Em 1967 o ex-ministro de Vargas morreu e confiou a guarda dos bilhetes ao ex-governador de Sergipe, Lourival Baptista, solicitando que as mensagens só fossem tornadas públicas depois de 40 anos.

 

Expirado o “período de quarentena”, o filho do sergipano Lourival Baptista, o psiquiatra Francisco Baptista Neto, finalmente mostrou ao jornalista Marcos Strecker, da Folha, os bilhetes de Getúlio. Trata-se de uma documentação importante justamente porque ajuda os pesquisadores a conhecerem melhor um Vargas distante dos estereótipos construídos em torno de sua figura.

 

O Getúlio que surge desses bilhetes não é o personagem mítico criado pela propaganda do Estado Novo nem o caudilho autoritário pintado por seus adversários. É o administrador público eleito democraticamente, despachando assuntos do cotidiano, longe dos holofotes. O fato de se tratarem de mensagens privadas, que não tinham qualquer intenção de propaganda, talvez ajude os pesquisadores a compreender melhor essa figura ambígua que ainda desperta paixões entre as mais variadas correntes ideológicas.

 

Por Bruno Fiuza

Era da Esquizofrenia

 

Há algum tempo certos pensadores vêm falando de um novo “mal-estar na civilização”, típico de nosso tempo: o abandono da vivência concreta em benefício de variadas formas de interação virtual. Em geral, esse costuma ser um debate árido e profundamente abstrato, mas a brilhante entrevista que o jornalista americano Gay Talese concedeu ao programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, no último dia 20 de julho, mostrou que a questão está longe de ser um mero debate acadêmico.

 

Durante a conversa com os entrevistadores escalados pelo programa, Talese, um dos criadores do chamado new journalism, falou sobre as dificuldades pelas quais o jornalismo passa hoje. Segundo ele, boa parte da crise de credibilidade que a imprensa mundial (e americana em especial) vem enfrentando desde os atentados de 11 de setembro de 2001 se deve ao fato de os repórteres terem deixado de fazer aquilo que ele chama de legwork, o bom e velho “gastar sola de sapato”.  

 

Talese tem moral para fazer essa crítica às novas gerações. Ele é um dos principais representantes do movimento que nos anos 60 fundiu jornalismo e literatura, utilizando técnicas narrativas sofisticadas para contar histórias reais por meio de grandes reportagens. Para isso, os jornalistas dessa escola iam para as ruas e mergulhavam profundamente no cotidiano dos personagens que retratavam. Passavam semanas investigando para depois condensar suas experiências em um texto literário de não-ficção.

 

O fato de um dos pais desse tipo de jornalismo constatar que o gênero está em crise diz muito não só sobre a imprensa atual, mas também sobre o mundo no qual ela está inserida. A verdade é que a constatação de Talese é a ponta de um iceberg muito mais profundo, de proporções históricas gigantescas.

 

Não são só os jornalistas que não saem mais às ruas para fazer reportagem. Não são só os repórteres que escrevem verdadeiros tratados sobre pessoas que nunca viram pessoalmente na vida. A cada dia, cada um de nós faz isso com cada vez mais frequência.

 

A crise do new journalism é consequência de uma das mais radicais revoluções técnicas dos últimos 500 anos, a revolução da informática e das telecomunicações. Nas últimas quatro décadas as tecnologias da informação se desenvolveram de tal maneira que surgiu um abismo entre a época de ouro do new journalism e os dias atuais.

 

Não há dúvida de que hoje temos acesso a uma quantidade de informações incrivelmente maior do que nossos colegas dos anos 50 e 60 tinham. Isso em tese é ótimo, mas esse salto tecnológico produziu um efeito colateral do qual só agora estamos começando a nos dar conta: o divórcio com a realidade que nos cerca.

 

As máquinas nos permitem entrar em contato, em tempo real, com o outro lado do planeta, mas ao mesmo tempo nos afastam do nosso vizinho. Quando queremos falar com um amigo, por falta de tempo deixamos de marcar um encontro ou até mesmo de ligar, e nos limitamos a mandar um e-mail. O resultado disso é que estamos cada vez mais distantes da realidade, da vivência concreta. Estamos transferindo nossa vida para o mundo virtual e achamos isso lindo.

 

Por tudo isso, a entrevista de Gay Talese lembra como, em certo sentido, por trás de todo esse progresso que veneramos como um deus moderno, está em curso uma regressão brutal. Estamos simultaneamente avançando e regredindo, dançando como Michael Jackson, dando a impressão de estar caminhando para frente quando na verdade andamos para trás. Sabemos tudo o que está acontecendo no Afeganistão, mas somos incapazes de sair à rua e olhar nos olhos do nosso vizinho.

 

Estamos nos divorciando da realidade, e as consequências podem ser catastróficas. A crise financeira global é um sinal desse processo: depois de décadas de transações virtuais em que valores inexistentes eram negociados por malabaristas responsáveis por fazer as pessoas acreditarem em um mundo que não passava de um castelo de cartas, a economia decidiu passar a fatura... e de repente todo mundo se lembrou que o mundo real ainda existe.

 

O crescimento assustador da indústria de antidepressivos não é mais um sinal desse novo mal-estar na civilização? Que trauma maior para uma criança que passou a vida toda protegida da realidade de repente se dar conta, aos 18 anos, de que vai ter que fazer o impossível para conseguir um emprego em um mundo onde o trabalho é cada vez mais dispensável?

 

Os psicólogos e psiquiatras dizem que a esquizofrenia é o distúrbio que provoca uma cisão com a realidade. Não seria exagero, portanto, dizer que estamos vivendo a Era da Esquizofrenia. E é melhor pensarmos bem até que ponto estamos dispostos a levar adiante esse divórcio com o mundo real...

 

Por Bruno Fiuza

[ ver mensagens anteriores ]